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A ARROGÂNCIA E A FRAQUEZA DO ARROGANTE




Entre nós humanos não há sequer uma única pessoa que já não tenha experimentado o desgosto em ser destratado por um outro humano arrogante, como também o inverso. Somente quando somos a vítima percebemos o quanto a sensação é horrível, pois, o arrogante a fim de proteger-se de sua insegurança faz com que suas vítimas se sintam menosprezadas e mergulhadas em um sentimento de inferioridade.

Ninguém entre nós está imune aos atos arrogantes de nossas relações, principalmente quando nos julgamos melhores do que outros. Nossa arrogância ainda que dentro de parâmetros toleráveis, se faz presente em atitudes como: quando acreditamos piamente que nossa orientação religiosa e a mais correta e virtuosa do que a de outras pessoas; que nossos filhos são mais disciplinados e inteligentes do que os do vizinho ou de um parente, etc.

Estudos comportamentais apontam que ao iniciar suas relações sociais e profissionais, o arrogante aparenta ser agradável transmitindo a sensação de autocontrole, segurança e confiança em si mesmo, até que sua aparente superioridade seja confrontada por alguém que obstrua o fluxo de tudo aquilo que gira em torno dele e é alimentado por elogios e por seu egocentrismo. Basta receber uma crítica, ser desmentido e\ou contrariado para se entrincheirar e disparar seus despautérios, quando não envereda para caminhos mais perigosos.

O ser tipicamente arrogante e sem limites, na maioria das vezes é um sujeito psiquicamente adoentado que semeia por onde passa, desconforto e terror psicológico, criando uma atmosfera escura, na qual protege sua fraqueza de olhos alheios. Todas suas ações são cortinas que afastam olhos alheios de seu verdadeiro caráter ou falta dele, como também suas mais secretas fraquezas.

Para a escritora Debbie Ford em seu best-seller — Como entender o efeito sombra em sua vida[i] —, a natureza humana da arrogância se disfarça na grandiosidade e\ou em uma enorme autoconfiança, como forma de fugir do medo e da insegurança. A autora nos leva a perceber que a arrogância está fixada em uma obsessão, em uma idealização e em uma ilusão em que o sujeito arrogante acredita ser maior que as próprias pernas suportariam.

O indivíduo arrogante é alguém que atua como se fosse mais inteligente, por isso se vê no direito de olhar o seu semelhante de cima para baixo, como também incorpora a ilusão em ser mais grandioso em suas tarefas e posição, seja profissional ou social, quando, na verdade, tenta de todas as formas preencher as lacunas que traz na alma, como traumas de uma vida mal resolvida, ou seja, dificilmente um arrogante cai em si mesmo, pois, a sua fantasiosa grandiosidade é que lhe protege de seus fantasmas psíquicos.

Ainda quanto a arrogância, devemos tomar cuidado ao julgarmos uma outra pessoa como arrogante por discordar de nossas opiniões e assim, não avalizar nossa vaidade.

Quando alguém questiona nossas certezas e isso nos afeta, pode estar aí, um indício de que a arrogância viceja dentro de nós.

Nossas convicções são as grades em que a arrogância nos detém, e uma vez enjaulados não admitiremos facilmente que estamos errados, pois, a arrogância inverte os significados, isto é, faz com que o ser pouco inteligente se considere um gênio, etc.

Nietzsche, em — Humano, Demasiado Humano[ii] —, escreve que “desaprende-se a arrogância quando se tem a certeza de estar entre pessoas de mérito”. O autor alemão diz claramente que a manifestação da arrogância em locais em que as virtudes e as qualidades são verdadeiras, o arrogante se cala, pois, a manifestação de sua arrogância está em desvantagem e a arrogância nesse caso é um erro, ou seja, o arrogante só triunfa nos locais em que há fraqueza.

É importante observar neste contexto, que a arrogância não tem nada a ver com o orgulho, embora uma pessoa possa ser ao mesmo tempo, orgulhosa e arrogante. O orgulho vem da satisfação pessoal em ter alcançado algo grandioso, enquanto que a arrogância está no fato de alguém sentir-se imbatível, inigualável e insubstituível por ter conquistado alguma coisa grandiosa.


[i] FORD, Debie. Como entender o efeito sombra em sua vida. Editora Cultrix, 2010.

 

[ii] NIETZSCHE, Friedrich. Humano Demasiado Humano (tradução de Paulo Cezar de Souza). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.